Bruno Lara: E quando uma mentira muda a eleição nos Estados Unidos?

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Desde que circulava a notícia de que Silvio Santos ou o Roberto Bolaños havia morrido, no tempo em que eu ainda frequentava o ensino fundamental, a repercussão era grande. Como poderia o mundo conviver com a falta do Chaves? Pior ainda. Como conviver sem ver o Bom Dia e Cia., já que o dono do SBT morreu? Bradei aos sete ventos: “morreu o Chaves!”. Alguns, assim como eu, ficaram assustados. Os mais informados não. Já sabiam o resultado: “é mentira!”, respondeu o maior do fundão.

Evitando a vergonha de contar para toda a turma uma notícia que não era verdadeira na próxima oportunidade, comecei a perguntar para os mais informados sempre que recebia uma dessas. Uma questão de lógica: se eles sabem que é mentira antes mesmo de eu receber a notícia, melhor confirmar com eles antes de passar para os colegas.

Até que um dia um deles, para zoar com um colega acima do peso, repassou uma foto do amigo sem camisa e comendo um cachorro-quente enorme. Uma montagem esdrúxula, é verdade, mas com muito sentido para mim. Os detentores da verdade haviam mentido! E o mais importante: mentiram para denegrir o colega, o que era o objetivo e eu sabia disso. As crianças da volta, por si só, incluindo eu, não acreditaram por causa da qualidade da montagem, mas porque também queriam entrar na onda daquele grupo legal que zoava o gordo. Afinal, mais importante do que a verdade é fazer parte do grupo.

Com internet e a facilidade disso ocorrer em larga escola, essa prática saiu da escola e se espalhou pela cidade para denegrir um adversário, expor o que está errado, até ser utilizada para vencer campanhas eleitorais. Nos Estados Unidos, nas eleições de 2016, as notícias falsas tiveram mais alcance no Facebook do que veículos tradicionais da imprensa como o The New York Times e o Washington Post. Estamos falando de poucos meses de uma campanha eleitoral. Não há como corrigir. Mesmo amplamente divulgadas, não atingem o mesmo público que a mentira. Não há como recuperar. Uma vez repercutida, no mínimo a desconfiança permanece.

As notícias falsas tratam sobre epidemias, vacinas, postos de saúde, posicionamentos políticos, invasões de terras, os mais diversos temas e se disseminam com a velocidade da curiosidade das pessoas. Um boato, uma única fagulha é capaz de ascender um incêndio de grandes proporções que não sai do imaginário coletivo mesmo ao ser explicada por diversas vezes.

Enquanto Donald Trump foi com a turma do fundão, criticando com voracidade a imprensa, esquadrinhando inimigos, criando notícias que agiam a seu favor, Hillary Clinton corria atrás do tempo tentando se explicar. Óbvio, era mais legal ser da turma legal do que ficar se explicando. Hillary precisava dar justificativas para as notícias com milhões de compartilhamentos que a difamavam. Neste meio tempo, Trump dominava os noticiários. Viciado pela imprensa e a força que tem, o próprio Trump ligava para jornalistas contando de sua relação com personalidades como Madonna e Carla Bruni. Tudo mentira. Mas que ao voltarem ao assunto, novamente Trump era notícia.

Quando falamos do gordinho da escola o assunto perde força. Mas e quando se trata de uma mentira que pode mudar uma eleição para presidente e, com isso, o rumo dos Estados Unidos, a maior nação do mundo?

Da próxima vez, mesmo sabendo que os mais informados podem me mentir, vou procurá-los para saber a verdade. Ou o mais próximo disso possível.

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